Entendeu ou quer que eu desenhe?

Ainda me recordo de uma “cervejola” com o Marquito em um domingo desses, perdido por aí. Eu ainda morava em Salvador e aproveitava para ir aos domingos à Ribeira – onde a “ampola” de Skol custava menos que uma passagem de ônibus.

Marquito, comunicólogo da UFBA, era um devorador compulsivo de arte contemporânea na sua linha mais democrática e acessível: Cartoons, quadrinhos, fotografia, vinís, cinema independente dentre outras vertentes. Naquela tarde o tema da conversa eram os truques inusitados que os artistas usavam para burlar a patrulha ideológica durante os “anos de chumbo”.

Ele falava da ocasião de quando o cantor e compositor Tom Zé e o seu amigo, o poeta Décio Pignatari, resolveram sacanear os censores do regime militar. Fotografaram o olho do c* (é isso mesmo que você leu) de uma modelo com uma bolinha de gude e usaram a foto para ilustrar na capa do disco “Todos os Olhos” de 1972. A púdica censura do governo Médici – justo o governo ultra-conservador, que mais levou ao extremo a perseguição e a tortura durante o periodo da ditadura – nunca desconfiou que a imagem vanguardista e pitoresca na verdade se tratava de um legítimo fiofó.

Ainda que a citação “uma imagem vale mais que mil palavras” tenha caído em lugar-comum, essa história foi só um exemplo de como a “linguagem ilustrada” pode ser uma ferramenta poderosa para transmitir uma ideia, conceito ou notícia sem que ela corra o risco de ter sua essencia deformada pela censura – seja ela institucional, editorial ou ideológica.

Enquanto muitos amigos jornalistas se queixam de terem seus trabalhos retalhados pelo redator-chefe do veículo de comunicação em que trabalham, sendo obrigados a florear o conteúdo de seus textos com eufemismos cretinos ou mesmo ter que dar sumiço em paragrafos inteiros só para não ferir os interesses “da linha editorial do jornal”, o cartunista ainda consegue ter mais chances de bancar o “joão-sem-braço” e ser incisivo e direto como um jornalista escrito ou televisivo jamais conseguirá ser. Inclusive tendo  chance de criticar abertamente o veículo em que contrata seus serviços sem nem despertar a suspeita do contratante.

Mesmo em questões que não são regidas pela alçada do jornalismo, a charge talvez seja o instrumento indutor de reflexão mais valioso da sociedade desde que o primeiro sapiens resolveu que era importante contar pra todo mundo o quanto ele era foda na hora de abater um mamute.

Nem Sócrates, Platão, Nietzche ou nenhum outro, conseguiu transmitir uma ideia de forma tão completa, tão rica de significância e de maneira tão concisa, mesmo assim não me vem a mente agora nenhum cartunista que tenha entrado para história pelo seu traço. Mas talvez seja justamente por essas cabeças jazirem nas profundezas da história que o serviço se mantenha constante e eficaz.

Ou talvez essa seja a grande graça do espírito “Troll”.

Na verdade só resolvi escrever esse post porque em outra cervejola – dessa vez na cosmopolita São Paulo – um individuo sentado a mesa veio me perguntar: “Porque todo mundo tá falando desse tal Laerte? Só porque ele se veste de mulher?

Virei o copo, fui no banheiro e deixei o “barril” pra outros amigos que estavam na mesa.


PS: Aproveitei e fiz uma lista de cartunistas interessantes pra se acompanhar:

Manual do Minotauro (Laerte): O “faixa-preta”, segundo André Dahmer, é o primeiro da lista. Laerte consegue reunir no seu traço sutileza e acidez numa medida que por vezes,  numa primeira olhada, um dois dois ingredientes pode passar despercebido. Mas olhe de novo e repare que ambos estão lá. É o “troll sensível”. O “Manual do Minotauro” é uma compilação de trabalhos que reune bem a essencia do cartunista. Mais personalista do que público.

Charges do Angeli (Angeli): O paulistano Angeli reune em sua galeria de personagens alguns dos esteriótipos mais famosos do cotidiano do brasileiro urbano. Se você não viveu os anos 80-90, eis a sua chance de esmiuçar essa sociedade perdida e esquisita que até hoje ninguém compreende – nem quem a viveu. No seu curriculum inclusive, figura o cargo de redator da TV Colosso

Malvados (André Dahmer): Da “nova gerção”, Dahmer é o meu favorito e é a prova genuina de que toda desgraça do mundo é risível. Ele é áspero, impiedoso e verdadeiro. Sua  charge geralmente induz ao leitor uma profunda crise de consciência. Seja uma crítica a uma tragédia em escala mundial como a política externa dos EUA  para o Oriente Médio, uma leitura da sociedade de consumo, ou simplesmente uma reflexão sobre os relacionamentos interpessoais comuns às nossas vidas, ele lhe dá certeza de que a vida é uma tragicomédia.

Mau Humor (Arnaldo Branco): Arnaldo é menos ácido que Dahmer e o seus assuntos preferido são o cotidiano e a sociedade da informação. Sua charge induz mais a uma constatação do que a uma crítica. Pai do maconheiro preferido de todos, o Capitão Presença.

Blog de Charges do Thomate (Thomate): Thomate é uma daquelas descobertas que seria capaz de fazer até um jornalista se questionar porque ainda nos damos o trabalho de ler ou assistir alguns periódicos. Sua munição é principalmente direcionada para o campo da política. Não costuma ter eufemismos ou piedade. Papo reto.

PS2: É verdade, porque todo esse rebuliço porque o Laerte se veste públicamente de mulher? Aliás, talvez essa comoção toda possa render frutos muito positivos. Quem sabe enfim, a emancipação masculina

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