Marcinho, Meu Nêmese.

Marcinho, apesar de torcedor do Vitória, é um grande sujeito. Tem mais ou menos uma década que nos conhecemos. Ele é reservado, é amigo dos amigos, tem bom senso de humor, um bom gosto pra música e é instrumentista, inclusive…

Grande sujeito.

Nos ultimos anos nos falamos esporadicamente pelo Facebook. O assunto é quase sempre política ou futebol. E em ambos nós discordamos veementemente.

Apesar de tanto eu quanto Marcinho trilharmos caminhos muito parecidos na vida (mesmo tipo de formação, bons colégios, boas faculdades), em muitos aspectos somos divergentes mas, nenhuma das nossas discussões (discussão, nunca bate-boca. Não confundam) rende mais troca de “farpas” do que nossas posições políticas. Eu com minha inclinação para esquerda, Marcinho, para a direita.

E discutimos sobre legalidade, direito à propriedade, justiça social, corrupção, militância… todos os pratos bem servidos de acidez e provocação – de ambos os lados. As vezes seguimos os arquétipos convencionais atribuídos aos pensamentos de esquerda e de direita – o esquerdista é apaixonado e o direitoso é cético. A medida em que o debate vai fluindo, não é incomum invertemos as posturas. Dificilmente uma terceira pessoa se intromete na conversa (aqui não é jogo pra mirim não, amigo) e quando faz, se retira logo do jogo.

A munição é sempre pesada: registros históricos, livros legais, artigos da constituição e reportagens. Nesse ultimo citado, nem todas as reportagens são aceitas por restrições naturalmente impostas pelas nossas divergências editoriais. Artigo de colunista então, não tem vez – “opinião eu tenho a minha, atenha-se aos fatos”.

“Opinião, eu tenho a minha!” Geralmente as pessoas tem asco de ter em seu convívio alguém com um pensamento tão antagônico ao seu. Elas preferem omitir suas posições sobre determinados assuntos e, muitas vezes, chegam ao extremo de se desfazerem delas para sustentarem uma convivência harmônica com seu círculo social. Quando finalmente emerge a necessidade de entrar numa discussão sobre um assunto espinhoso e inevitável, o discurso se torna vazio, sustentado apenas por repetição de citações ocas e fora de contexto. Muito se reverbera e pouco se pensa. Nessas horas as pessoas preferem delegar a um “especialista avalizado” a sua opinião. Ninguém quer cozinhar, só quer comer requentado. E assim surge a massa de manobra.

Me lembro que na época do AcampaSampa o maior desafio da galera era justamente quebrar essa cultura da idéia pronta dos visitantes. Muitas pessoas queriam um discurso para repetir, uma bandeira para segurar. Algo que fosse simples e maniqueísta.

Mesmo alguns jornalistas quando iam nos visitar atrás de um “protesto”, querendo saber que esfera do poder público estavámos confrontando ou quem eram os líderes, ficavam confusos quando respondiamos algo como: “Olha, melhor você refazer sua pauta, em primeiro lugar isso é um acampamento de discussão política, apartidário e sem liderança.”

Mas os leitores querem idéias prontas, respostas, discursos inflamados e unanimidade.

O resultado é que não foram poucos os veículos que chamaram o Acampa de modinha intelectulmente vazia, inconsistente e caótica. Não entendiam que mais importante do que confrontar o Estado é confrontar o cidadão. Questionar seu modo de ver política e cidadania, desconstruir e entender o país e a cidade em que vivemos.

O mais deselegante é que a mesma imprensa que demonizou o AcampaSampa, que taxou de aberração um acampamento de discussão política, celebra deslumbrada “um monte de gente abrigada em barracas de camping por seis dias só para conhecer as novidades do universo digital”. Com todo o respeito aos amigos jornlistas, é um juizo de valor meio burro.

A discordância é essencial para que a discussão se sustente. Política é discordância. Construção de conhecimento é contestação. Inteligência é dúvida.

É por isso que sempre dou trela às discussões com Marcinho. Nos enriquece o pensamento e a opinião. Se mais e mais pessoas defendessem suas posições políticas (ou mesmo se preocupassem em ter uma) como fazem com futebol – e mais recentemente aqui em São Paulo, com o carnaval – que país nós não teriamos, hein?

Aliás, a única coisa que não discuto com Marcinho é futebol.

Porque “freguês sempre tem razão”.

Thomate

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