Meu Querido Canibal.

E no quinto dia, um deus desceu à Nod e foi ter com os seus.

Os corações regorgizaram-se pois, eras atrás, esse mesmo deus ascendeu ao panteão brandindo sua espada flamejante contra um inimigo de seu povo. Ele pousou sobre Nod e entoou seus cânticos. O povo da cidade dos condenados prostrou-se e o louvou. Até que, em sua dança furiosa, o deus voltou sua espada contra aqueles que o louvavam.

A história do teatro brasileiro se confunde com a própria biografia do Zé Celso. Inventivo, questionador e polêmico. Apanhou da ditadura, perdeu amores e amigos para a barbárie e hoje merecidamente repousa ao lado da fonte de ambrosia do paraíso, desfrutando da tutela de parte de uma geração que deu testa à ditadura, mas que tomou para si a chave dos portões do jardim do Édem.

Após uma conturbada (e questionável) visita à ocupação da Funarte, Zé Celso redigiu uma carta aberta execrando os rebelados que infelizmente, ao contrário dele e dos seus eleitos, não tem a mesma liberdade e recursos para desenvolver e expandir a sua arte.

Meu querido canibal,

Como parte dos “infiéis” que ocuparam as instalações da Alameda Northmann 1058 fiquei lisonjeado pela atenção que você dispendiou à nossa rebelião a ponto de merecermos a postagem inaugural de seu blog. No entanto, venho por meio desta carta pessoal recomenda-lo a redigir postagens mais sucintas a fim de permitir menos contradições ou contestações.

Tente entender que nós da “esquerda  cuecona” não desfrutamos do sortido e bem-afortunado leque de amizades que você e sua companhia dispõem. Nenhum de nós está a um telefonema de distância do seu amigo Silvio Santos, esse “bicho humano adorável” (como você mesmo se referiu a ele em sua postagem), da “presidenta” Dilma, do eterno candidato Zé Serra e as óbvias facilidades que essas amizades provêem.

Espero também que você compreenda que, essa sua maravilhosa e expansiva visão do mundo e de todas as coisas que nos cercam, nos é cerceada pelo intransponível muro das ‘contas a pagar’.

Infelizmente as instituições financeiras também não aceitam a penhora nossos cuecões em troca de fundos para viabilizar as nossas produções. Não seria maravilhoso se entidades como o Pau e Lata (Mossoró – RN) ou os coletivos do interior do Rio Grande do Sul tivessem a oportunidade de manifestar a plenitude de suas capacidades artísticas?

A verdade é que todos precisamos cagar, mas não há papel higiênico pra todo mundo. Muita gente vai ter que limpar o cú com a blusa. Ou – como você deu a entender – com o cuecão.

Imagino que ainda hoje, muitas pessoas se enterneçam com a pintura do quarteto de cordas que toma de assalto a rua – como uma bolha de ar na bolsa d’água do caos – com direito a aquele chapéu mal acabado no chão reluzindo parcas moedas e cercados pelos efuzivos aplausos daqueles transeuntes sem rosto. Do maracatu que passa furtivo e rouba sem aviso a angústia das metrópoles ou da montagem de Bretch no meio da hora útil, cujo o texto há de deitar-se com o funcionário da Bovespa e tirar-lhe o sono por uma noite ou por uma vida.

Pura poesia.

Mas somos o país dos poetas de obras póstumas e, empacados na encruzilhada entre fazer arte ou  fazer comida, não temos outra saída a não ser a vida dupla do artista analista de sistemas. Do artista funcionário de cartório. Do artista atendente do Outback. Todos devidamente formados pelas renomadas escolas de arte e da vida. Não lhes falta arte, lhes falta o mecenas.

Antes o que nos afligisse fosse a tal “pobreza de espírito”, mas na verdade nossa pobreza é outra.

Por favor, eu imploro, não venha me dizer para nos “orgulharmos da gestão Lula, Gil, Juca, para sua estratégia MARAVILHOSA DE ERRADICAÇÃO DA POBREZA NO BRASIL”. Porque alguns metros abaixo, no número 280 da mesma Alameda Northmann, a pobreza foi erradicada com a presença de um destacamento da polícia militar e de um oficial de justiça portando uma ordem de reintegração de posse. Nossa algazarra ainda causou algum alarde, mas a demanda deles é invisível e indigente. É pauta vencida nas empresas de mídia. Com sorte aquele arremendo de prédio deve pertencer à algum outro “bicho humano adorável” que há de transforma-lo em um espaço de arte para algum coletivo de sorte mediante a alguma publicidade positiva.

Mas com tanto pobre por aí, o que são algumas famílias desesperadas?

Com tantas montagens por aí qual a cultura que serve e que não serve?

Se você portar em seus cadernos algum grande plano generoso para nos ajudar a fazer das nossas vidas o que nos propormos a fazer, temos amigos em comum que sabem onde me achar.

Mas se é pra limpar a bunda com café quente, nem me venha com essa xicrinha.

Chega de cafezinho.

É hora de perder a paciência.

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2 comentários sobre “Meu Querido Canibal.

  1. Pingback: Em resposta a Zé Celso 2. | companhiaestudodecena

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