Barreiras do Som

Sexta à tarde, naquele instante sabático de se debruçar sobre timeline do Facebook, vi que alguns amigos assinalaram “curtir” para uma página em comum. Agridoce.

Mas que diabo é “Agridoce“? Só dá pra saber clicando.

Na verdade o Agridoce foi uma surpresa gostosa – surpresa pra mim, já que quem é mais próximo à Pitty e ao Martin provavelmente estava a par do projeto. As minhas primeiras impressões ainda em “O Porto” persistiram até “Dançando” e a minha indisfarsável satisfação ao fim da lista óbviamente me fez querer dividir a descoberta com outros tantos amigos. O talento da Pitty como letrista é antigo, público e notório. Somando isso à construção primorosa dos arranjos, fundamentadas em melodias muito bem desenhadas, o duo brinda o público com uma faceta não muito conhecida fora da roda dos amigos, uma pele sem as cicatrizes da MTV Brasil – uma fase que você, mais “alternativo”,  pode até ter as suas ressalvas justamente por conta dos rótulos “MTV Brasil” e “Mainstream“, mas que fora fundamental pra que ambos conseguissem aquela estabilidade que precede a delícia de se expor mais. Pra mim foi o mesmo deleite de descobrir os escoceses do The Delgados há uns bons anos atrás.

O cenário musical baiano é cruel e penoso pra quem não curva a espinha para o ‘axé’ e o ‘pagodão’. A partir dos anos 80, consolidou-se uma indústria cultural forte e tirana em torno do ‘som do carnaval’. Lá é praticamente impossível encontrar, em uma garimpada no dial, algum som que não seja filhote dessa tendência. Mas o som livre da Bahia vive.

Ainda que no porão mais ‘under’ do underground, não é difícil achar grandes bandas de Rockabilly, Punk Rock e Indie Rock na terrinha. Não essa coqueluche de roupas coloridas e arquétipos pasteurizados (salvo algumas exceções) daqui da rua Augusta. A Bahia das dancinhas irreverentes – e repetitivas – tem bandas de metal desconhecidas em seu próprio quintal, mas sortidas de devotos em países como a Alemanha e no leste europeu.

Esse heroísmo, essa bravura, essa vontade de sobreviver remete aos mais saudosístas alguns instantes memoráveis, como quando, durante a cerimônia de premiação do VMB em 2008, Pitty subiu ao palco acompanhada dos veteranos do Dr. Cascadura e executou um cover emocionante (meu chapa, se você viveu a Salvador dos anos 90,  vai saber que o adjetivo não é nenhum devaneio) de outra banda baiana – a Úteros em Fúria – uma banda pioneira, guardiã de uma geração inteira de roqueiros soteropolitanos, um foco de resitência, que vergonhosamente hoje sequer tem uma nota no wikipedia.

Outra banda baiana que chegou a fazer algum sucesso na MTV dos anos 90 foi a Penélope Charmosa – inclusive com um cover gostosíssimo de “Namorinho de Portão” do Tom Zé – mas o show business, que já  é cruel por si só, é ainda mais terrível para as bandas que não conseguem nem fincar suas raízes em seu solo materno. E não por falta de talento.

Depois que a Penelope se dissolveu, Luisão Pereira me reapareceu em 2008 e juntou-se à Fernanda Monteiro (do corpo da Orquestra Sinfônica da Bahia)  formando o duo “Dois em Um”, provando que é um multinstrumentista de mão cheia

Mas como bater de frente com uma indústria musical tão perversa e impiedosa?

É possível fazer algo tão apaixonado e honesto sabendo que, uma atividade que requer tanta dedicação e esforço, não garante seu pãozinho na mesa?

Não há alternativas a não ser “subir no pau-de-arara” rumo ao sul ou terminar como um musico brilhante – um baixista que não vou citar o nome – executando 2 ou 3 acordes por música em cima de um trio elétrico?

Deus salve Pitty Leone e Martin Mendonça.

#prontofalei

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6 comentários sobre “Barreiras do Som

  1. E aheee
    Bem?
    Curti o post, tenho aos poucos entrado mais em contato com o Rock baiano… eu como boa paulistana sempre tive uma mente que delimita a Bahia à axé… mas ainda bem que venho aos poucos descobrindo o que se mantém infelizmente escondido da grande massa…. mas apesar da tristeza desse não reconhecimento nacional, tenho andado por ai me sentindo meio como uma exploradora, Indiana Jones dessas jóias.
    Bom, boa sorte com o blog, e com tudo o mais que desejar
    Hasta!
    Ps: fica a dica para conhecer uma banda que tenho gostado: Maglore.

    • Nossa! Curti Maglore, não tinha ouvido ainda… e olha que mundo pequeno, quem assina o clipe de “Enquanto Sós” são dois amigos meus: Cesinha Veloso e Eugeniusz Kowalski. Quando eu pisar em Salvador de novo os caras vão me encher de pancada! hahaha

      • Oie
        Bem?
        Eu to curtindo bastante Maglore… eles tem potencial! = )
        E nossa que coisa heim?? O mundo é verdadeiramente um orkut…estamos todos de alguma forma interligados! hehe
        Legal! Vou aparecendo por aqui pra ver as novis
        Cuida-te

    • Ok, caro “gu”. Fique a vontade para discorrer sobre o assunto. O espaço é livre. Pode enumerar alguns pontos de discordância pra gente? Queria até melhorar o post, mas com esse comentário vago não dá pra saber onde está o “equivoco”. abs

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