Aquivos por Autor: Fabrício Lima

Os Flautistas e Os Ratos

Diga-me o que compartilhas e eu te direi quem és.

A definição de 2009 do STF que transformou o diploma de jornalismo em embrulho de peixe transformou cada usuário do facebook em um jornalista em potencial. Mas a despeito do que pensa a casta dos magistrados (aliás, já que mencionei a turma da toga, sei de alguns juristas que tornam o diploma de direito bem mais inútil do que o de jornalista) essa realidade das redes sociais só deixa mais evidente o tamanho do perigo que a precarização do ofício jornalismo.

Meses atrás, a campanha Stop Kony/Kony 2012 da ONG Invisible Children abarrotou as timelines brasileiras com seu viral, tomando de assalto cada coração inquieto que soubesse ler as legendas. Não demorou muito e descobriu-se que Kony e a LRA praticamente não operavam mais em Uganda há tempos, que apenas endossamos o envio de tropas americanas à um país que acabara de descobrir uma grande quantidade de petróleo, que a ONG Invisible Children teve suas finanças questionadas e que outros tantos países da África que sofrem com a praga de outras organizações paramilitares com o mesmo modus operandi continuam fora do nosso “mapa da salvação”.

Esta tarde, alguns amigos começaram a circular o seguinte panfleto virtual:


Não que eu não ache a situação perfeitmente possível (provavel até) mas, reparem nas nuances. Prestou bem a atenção?

Lula e Cachoeira. Lula e Cachoeira? Porque o não Cachoeira e Roberto Civita (o proprietário da revista Veja, a publicação semanal de maior circulação do país – e estopim do escândalo  – na qual o contraventor Carlinhos Cachoeira afirmou em gravação mandar e desmandar)? Ou Cachoeira e Demóstenes Torres (Senador de Goiás então filiado ao DEM implicado diretamente nas gravações como consultor jurídico pessoal de Cachoeira e lobbysta a serviço do bicheiro no seio do legislativo)? A distração revelada nada mais foi do que a montaria pra uma outra distração? Propaganda de um determinado grupo político em forma de clamor por justiça?

Semanas atrás, me recordo de ter reproduzido uma informação bem porca sobre o consumo da soja para endossar meu argumento de que mesmo um vegetariano tem cota razoável na culpa pelo desmatamento – Estava furioso com o fato de estar sendo bombardeado em meu próprio perfil com panfletos instigando a “caça aos carnívoros”. Uma amiga me corrigiu, dei sumiço no ato-falho e o assunto morreu ali. (Mais tarde, assumi minha parcela de culpa na indústria da carne e assumi também que, mesmo assim, continuaria comendo meu bifinho. )

Moral da história: Independente de o quão ‘letrado’, ‘correto’ e ‘politizado’ você seja, independente do quão bem informado você se julgue, qualquer um é passível de reproduzir uma ideia falsa construída a partir de um caco de informação como uma verdade absoluta.

Então, antes se apertar o maldito botão “compartilhar”, recomendo que avalie se o mundo  é tão simples e maniqueísta quanto as redes sociais fazem parecer, se a informação que você está repassando não está distorcida ou pela metade e se a fonte – se não tem o diploma de jornalista – tem pelo menos alguma responsabilidade sobre o que escreve.

É isso ou ser mais um dos ratinhos gentilmente conduzidos pelo doce som da flauta pra fora de Hamelin (que nos dias de hoje pode ser um jingle publicitário, um vídeo viral ou um cartaz bem porquinho na sua timeline).

PS: Recomendo inclusive verificar as informações contidas nesse post nas mais diferentes fontes e juntar os cacos você mesmo. Afinal, eu posso ser mal-informado ou mal-intencionado..

Entendeu ou quer que eu desenhe?

Ainda me recordo de uma “cervejola” com o Marquito em um domingo desses, perdido por aí. Eu ainda morava em Salvador e aproveitava para ir aos domingos à Ribeira – onde a “ampola” de Skol custava menos que uma passagem de ônibus.

Marquito, comunicólogo da UFBA, era um devorador compulsivo de arte contemporânea na sua linha mais democrática e acessível: Cartoons, quadrinhos, fotografia, vinís, cinema independente dentre outras vertentes. Naquela tarde o tema da conversa eram os truques inusitados que os artistas usavam para burlar a patrulha ideológica durante os “anos de chumbo”.

Ele falava da ocasião de quando o cantor e compositor Tom Zé e o seu amigo, o poeta Décio Pignatari, resolveram sacanear os censores do regime militar. Fotografaram o olho do c* (é isso mesmo que você leu) de uma modelo com uma bolinha de gude e usaram a foto para ilustrar na capa do disco “Todos os Olhos” de 1972. A púdica censura do governo Médici – justo o governo ultra-conservador, que mais levou ao extremo a perseguição e a tortura durante o periodo da ditadura – nunca desconfiou que a imagem vanguardista e pitoresca na verdade se tratava de um legítimo fiofó.

Ainda que a citação “uma imagem vale mais que mil palavras” tenha caído em lugar-comum, essa história foi só um exemplo de como a “linguagem ilustrada” pode ser uma ferramenta poderosa para transmitir uma ideia, conceito ou notícia sem que ela corra o risco de ter sua essencia deformada pela censura – seja ela institucional, editorial ou ideológica.

Enquanto muitos amigos jornalistas se queixam de terem seus trabalhos retalhados pelo redator-chefe do veículo de comunicação em que trabalham, sendo obrigados a florear o conteúdo de seus textos com eufemismos cretinos ou mesmo ter que dar sumiço em paragrafos inteiros só para não ferir os interesses “da linha editorial do jornal”, o cartunista ainda consegue ter mais chances de bancar o “joão-sem-braço” e ser incisivo e direto como um jornalista escrito ou televisivo jamais conseguirá ser. Inclusive tendo  chance de criticar abertamente o veículo em que contrata seus serviços sem nem despertar a suspeita do contratante.

Mesmo em questões que não são regidas pela alçada do jornalismo, a charge talvez seja o instrumento indutor de reflexão mais valioso da sociedade desde que o primeiro sapiens resolveu que era importante contar pra todo mundo o quanto ele era foda na hora de abater um mamute.

Nem Sócrates, Platão, Nietzche ou nenhum outro, conseguiu transmitir uma ideia de forma tão completa, tão rica de significância e de maneira tão concisa, mesmo assim não me vem a mente agora nenhum cartunista que tenha entrado para história pelo seu traço. Mas talvez seja justamente por essas cabeças jazirem nas profundezas da história que o serviço se mantenha constante e eficaz.

Ou talvez essa seja a grande graça do espírito “Troll”.

Na verdade só resolvi escrever esse post porque em outra cervejola – dessa vez na cosmopolita São Paulo – um individuo sentado a mesa veio me perguntar: “Porque todo mundo tá falando desse tal Laerte? Só porque ele se veste de mulher?

Virei o copo, fui no banheiro e deixei o “barril” pra outros amigos que estavam na mesa.


PS: Aproveitei e fiz uma lista de cartunistas interessantes pra se acompanhar:

Manual do Minotauro (Laerte): O “faixa-preta”, segundo André Dahmer, é o primeiro da lista. Laerte consegue reunir no seu traço sutileza e acidez numa medida que por vezes,  numa primeira olhada, um dois dois ingredientes pode passar despercebido. Mas olhe de novo e repare que ambos estão lá. É o “troll sensível”. O “Manual do Minotauro” é uma compilação de trabalhos que reune bem a essencia do cartunista. Mais personalista do que público.

Charges do Angeli (Angeli): O paulistano Angeli reune em sua galeria de personagens alguns dos esteriótipos mais famosos do cotidiano do brasileiro urbano. Se você não viveu os anos 80-90, eis a sua chance de esmiuçar essa sociedade perdida e esquisita que até hoje ninguém compreende – nem quem a viveu. No seu curriculum inclusive, figura o cargo de redator da TV Colosso

Malvados (André Dahmer): Da “nova gerção”, Dahmer é o meu favorito e é a prova genuina de que toda desgraça do mundo é risível. Ele é áspero, impiedoso e verdadeiro. Sua  charge geralmente induz ao leitor uma profunda crise de consciência. Seja uma crítica a uma tragédia em escala mundial como a política externa dos EUA  para o Oriente Médio, uma leitura da sociedade de consumo, ou simplesmente uma reflexão sobre os relacionamentos interpessoais comuns às nossas vidas, ele lhe dá certeza de que a vida é uma tragicomédia.

Mau Humor (Arnaldo Branco): Arnaldo é menos ácido que Dahmer e o seus assuntos preferido são o cotidiano e a sociedade da informação. Sua charge induz mais a uma constatação do que a uma crítica. Pai do maconheiro preferido de todos, o Capitão Presença.

Blog de Charges do Thomate (Thomate): Thomate é uma daquelas descobertas que seria capaz de fazer até um jornalista se questionar porque ainda nos damos o trabalho de ler ou assistir alguns periódicos. Sua munição é principalmente direcionada para o campo da política. Não costuma ter eufemismos ou piedade. Papo reto.

PS2: É verdade, porque todo esse rebuliço porque o Laerte se veste públicamente de mulher? Aliás, talvez essa comoção toda possa render frutos muito positivos. Quem sabe enfim, a emancipação masculina

Marcinho, Meu Nêmese.

Marcinho, apesar de torcedor do Vitória, é um grande sujeito. Tem mais ou menos uma década que nos conhecemos. Ele é reservado, é amigo dos amigos, tem bom senso de humor, um bom gosto pra música e é instrumentista, inclusive…

Grande sujeito.

Nos ultimos anos nos falamos esporadicamente pelo Facebook. O assunto é quase sempre política ou futebol. E em ambos nós discordamos veementemente.

Apesar de tanto eu quanto Marcinho trilharmos caminhos muito parecidos na vida (mesmo tipo de formação, bons colégios, boas faculdades), em muitos aspectos somos divergentes mas, nenhuma das nossas discussões (discussão, nunca bate-boca. Não confundam) rende mais troca de “farpas” do que nossas posições políticas. Eu com minha inclinação para esquerda, Marcinho, para a direita.

E discutimos sobre legalidade, direito à propriedade, justiça social, corrupção, militância… todos os pratos bem servidos de acidez e provocação – de ambos os lados. As vezes seguimos os arquétipos convencionais atribuídos aos pensamentos de esquerda e de direita – o esquerdista é apaixonado e o direitoso é cético. A medida em que o debate vai fluindo, não é incomum invertemos as posturas. Dificilmente uma terceira pessoa se intromete na conversa (aqui não é jogo pra mirim não, amigo) e quando faz, se retira logo do jogo.

A munição é sempre pesada: registros históricos, livros legais, artigos da constituição e reportagens. Nesse ultimo citado, nem todas as reportagens são aceitas por restrições naturalmente impostas pelas nossas divergências editoriais. Artigo de colunista então, não tem vez – “opinião eu tenho a minha, atenha-se aos fatos”.

“Opinião, eu tenho a minha!” Geralmente as pessoas tem asco de ter em seu convívio alguém com um pensamento tão antagônico ao seu. Elas preferem omitir suas posições sobre determinados assuntos e, muitas vezes, chegam ao extremo de se desfazerem delas para sustentarem uma convivência harmônica com seu círculo social. Quando finalmente emerge a necessidade de entrar numa discussão sobre um assunto espinhoso e inevitável, o discurso se torna vazio, sustentado apenas por repetição de citações ocas e fora de contexto. Muito se reverbera e pouco se pensa. Nessas horas as pessoas preferem delegar a um “especialista avalizado” a sua opinião. Ninguém quer cozinhar, só quer comer requentado. E assim surge a massa de manobra.

Me lembro que na época do AcampaSampa o maior desafio da galera era justamente quebrar essa cultura da idéia pronta dos visitantes. Muitas pessoas queriam um discurso para repetir, uma bandeira para segurar. Algo que fosse simples e maniqueísta.

Mesmo alguns jornalistas quando iam nos visitar atrás de um “protesto”, querendo saber que esfera do poder público estavámos confrontando ou quem eram os líderes, ficavam confusos quando respondiamos algo como: “Olha, melhor você refazer sua pauta, em primeiro lugar isso é um acampamento de discussão política, apartidário e sem liderança.”

Mas os leitores querem idéias prontas, respostas, discursos inflamados e unanimidade.

O resultado é que não foram poucos os veículos que chamaram o Acampa de modinha intelectulmente vazia, inconsistente e caótica. Não entendiam que mais importante do que confrontar o Estado é confrontar o cidadão. Questionar seu modo de ver política e cidadania, desconstruir e entender o país e a cidade em que vivemos.

O mais deselegante é que a mesma imprensa que demonizou o AcampaSampa, que taxou de aberração um acampamento de discussão política, celebra deslumbrada “um monte de gente abrigada em barracas de camping por seis dias só para conhecer as novidades do universo digital”. Com todo o respeito aos amigos jornlistas, é um juizo de valor meio burro.

A discordância é essencial para que a discussão se sustente. Política é discordância. Construção de conhecimento é contestação. Inteligência é dúvida.

É por isso que sempre dou trela às discussões com Marcinho. Nos enriquece o pensamento e a opinião. Se mais e mais pessoas defendessem suas posições políticas (ou mesmo se preocupassem em ter uma) como fazem com futebol – e mais recentemente aqui em São Paulo, com o carnaval – que país nós não teriamos, hein?

Aliás, a única coisa que não discuto com Marcinho é futebol.

Porque “freguês sempre tem razão”.

Thomate

Fogo amigo.

Certa hora da manhã, encontro em minha caixa de mensagens:

“Não acredito em gente que se diz ‘heterossexual’ e depois chama o outro de ‘gostoso’ como você me chamou. Se é mesmo heterossexual, fará bem em deixar LGBT’s em paz, para sempre! Obrigado!”

Desculpe, mas aí é da minha criação. Graças a ela eu aprendi a ter carinho pelas pessoas pelo que elas são. O meu padrinho, uma das pessoas mais importantes da minha vida é homossexual. Fui criado em um terreiro de Candomblé que era da minha avó e hoje é da minha tia onde a sexualidade é absolutamente irrelevante. Sempre amei os meus amigos homossexuais da mesma forma que os que heterossexuais. Desde a minha adolescencia tenho procurado me policiar pra não me tornar uma pessoa que se pareça em alguma coisa com as mesmas que agrediram verbalmente ou fisacamente as pessoas que amo (e sempre carregar a culpa quando me pego falhando nessa minha diretriz). Agora, será que a minha forma de amar, o fato de que eu não sentir atração sexual por um outro homem é tão agressivo à você assim? E vai saber se isso não vai acontecer algum dia? Mas é algo tão inexplicável quanto mesmos motivos pelos quais existem pessoas que não sentem atração sexual pelo sexo oposto. Simplente não aconteceu. Ponto.) Isso é tão periclitante para que eu ame, respeite e admire alguém que ama de uma forma diferente da minha? Não seria incorrer no mesmo pecado daqueles que o querem à margem? Quanto a chamar de “gostoso” ou dizer “você está podendo”, “você está bonito”…, me desculpe, mas de onde eu venho isso não é preponderante para assinalar a sua verdade sexual. Demagogia? Ingenuidade? Vai saber… Se isso tudo ainda não fosse o bastante, as mesmas pessoas que perseguem os homossexuais como meu padrinho são as que perseguem os nordestinos como eu, os negros como minha avó paterna. Minha discreta militância pela PLC 122 é simplesmente para fazer justiça e garantir na esfera legal a mesma proteção (ainda que efêmera e raramente aplicada) que existe para a discriminação de cor ou procedência. Procedência essa que já fez o baiano aqui por pouco não levar surra de skins em 2008 aqui na Alameda Campinas (Fui salvo por graçons e seguranças de um Pub), o baiano aqui faz o que pode pra se segurar toda vez que ouve uma piadinha escrota com baianos vinda de pessoas relativamente próximas. Mas eu não tenho a menor pretensão de moldar o mundo, apenas desejo que o mundo não me molde. Realmente sinto muito que pense dessa forma, mas é só o que se pode fazer, sentir muito.

Fique bem, abraços.

Meu Querido Canibal.

E no quinto dia, um deus desceu à Nod e foi ter com os seus.

Os corações regorgizaram-se pois, eras atrás, esse mesmo deus ascendeu ao panteão brandindo sua espada flamejante contra um inimigo de seu povo. Ele pousou sobre Nod e entoou seus cânticos. O povo da cidade dos condenados prostrou-se e o louvou. Até que, em sua dança furiosa, o deus voltou sua espada contra aqueles que o louvavam.

A história do teatro brasileiro se confunde com a própria biografia do Zé Celso. Inventivo, questionador e polêmico. Apanhou da ditadura, perdeu amores e amigos para a barbárie e hoje merecidamente repousa ao lado da fonte de ambrosia do paraíso, desfrutando da tutela de parte de uma geração que deu testa à ditadura, mas que tomou para si a chave dos portões do jardim do Édem.

Após uma conturbada (e questionável) visita à ocupação da Funarte, Zé Celso redigiu uma carta aberta execrando os rebelados que infelizmente, ao contrário dele e dos seus eleitos, não tem a mesma liberdade e recursos para desenvolver e expandir a sua arte.

Meu querido canibal,

Como parte dos “infiéis” que ocuparam as instalações da Alameda Northmann 1058 fiquei lisonjeado pela atenção que você dispendiou à nossa rebelião a ponto de merecermos a postagem inaugural de seu blog. No entanto, venho por meio desta carta pessoal recomenda-lo a redigir postagens mais sucintas a fim de permitir menos contradições ou contestações.

Tente entender que nós da “esquerda  cuecona” não desfrutamos do sortido e bem-afortunado leque de amizades que você e sua companhia dispõem. Nenhum de nós está a um telefonema de distância do seu amigo Silvio Santos, esse “bicho humano adorável” (como você mesmo se referiu a ele em sua postagem), da “presidenta” Dilma, do eterno candidato Zé Serra e as óbvias facilidades que essas amizades provêem.

Espero também que você compreenda que, essa sua maravilhosa e expansiva visão do mundo e de todas as coisas que nos cercam, nos é cerceada pelo intransponível muro das ‘contas a pagar’.

Infelizmente as instituições financeiras também não aceitam a penhora nossos cuecões em troca de fundos para viabilizar as nossas produções. Não seria maravilhoso se entidades como o Pau e Lata (Mossoró – RN) ou os coletivos do interior do Rio Grande do Sul tivessem a oportunidade de manifestar a plenitude de suas capacidades artísticas?

A verdade é que todos precisamos cagar, mas não há papel higiênico pra todo mundo. Muita gente vai ter que limpar o cú com a blusa. Ou – como você deu a entender – com o cuecão.

Imagino que ainda hoje, muitas pessoas se enterneçam com a pintura do quarteto de cordas que toma de assalto a rua – como uma bolha de ar na bolsa d’água do caos – com direito a aquele chapéu mal acabado no chão reluzindo parcas moedas e cercados pelos efuzivos aplausos daqueles transeuntes sem rosto. Do maracatu que passa furtivo e rouba sem aviso a angústia das metrópoles ou da montagem de Bretch no meio da hora útil, cujo o texto há de deitar-se com o funcionário da Bovespa e tirar-lhe o sono por uma noite ou por uma vida.

Pura poesia.

Mas somos o país dos poetas de obras póstumas e, empacados na encruzilhada entre fazer arte ou  fazer comida, não temos outra saída a não ser a vida dupla do artista analista de sistemas. Do artista funcionário de cartório. Do artista atendente do Outback. Todos devidamente formados pelas renomadas escolas de arte e da vida. Não lhes falta arte, lhes falta o mecenas.

Antes o que nos afligisse fosse a tal “pobreza de espírito”, mas na verdade nossa pobreza é outra.

Por favor, eu imploro, não venha me dizer para nos “orgulharmos da gestão Lula, Gil, Juca, para sua estratégia MARAVILHOSA DE ERRADICAÇÃO DA POBREZA NO BRASIL”. Porque alguns metros abaixo, no número 280 da mesma Alameda Northmann, a pobreza foi erradicada com a presença de um destacamento da polícia militar e de um oficial de justiça portando uma ordem de reintegração de posse. Nossa algazarra ainda causou algum alarde, mas a demanda deles é invisível e indigente. É pauta vencida nas empresas de mídia. Com sorte aquele arremendo de prédio deve pertencer à algum outro “bicho humano adorável” que há de transforma-lo em um espaço de arte para algum coletivo de sorte mediante a alguma publicidade positiva.

Mas com tanto pobre por aí, o que são algumas famílias desesperadas?

Com tantas montagens por aí qual a cultura que serve e que não serve?

Se você portar em seus cadernos algum grande plano generoso para nos ajudar a fazer das nossas vidas o que nos propormos a fazer, temos amigos em comum que sabem onde me achar.

Mas se é pra limpar a bunda com café quente, nem me venha com essa xicrinha.

Chega de cafezinho.

É hora de perder a paciência.